A escola de samba Acadêmicos de Niterói resolveu fechar os comentários no Instagram depois de uma enxurrada de críticas ao desfile realizado no último domingo (15/2), na Marquês de Sapucaí. A decisão veio poucas horas após a apresentação, que abriu oficialmente a noite de desfiles e já começou causando burburinho dentro e fora da avenida.
Com o enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a agremiação prestou homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A proposta era contar a trajetória do líder petista desde a infância humilde até a chegada ao Palácio do Planalto. Uma história conhecida, mas que na Sapucaí ganhou cores, plumas e um toque de emoção — ou de polêmica, dependendo de quem estava assistindo.
O próprio Lula acompanhou tudo de perto, direto do camarote da Prefeitura do Rio. Em determinado momento, desceu para a avenida e acenou para o público. Quem interpretou o presidente na avenida foi o ator e humorista Paulo Vieira, que arrancou aplausos de parte da arquibancada e também alguns olhares atravessados.
Mas se dentro da Sapucaí havia festa, nas redes sociais o clima foi outro. Logo após o desfile, o perfil oficial da escola começou a receber uma série de comentários críticos. Teve ironia, provocação e até promessa de boicote. “Duas quedas em um só lugar”, escreveu um usuário, numa referência maldosa às notas da escola em anos anteriores. Outro comentou: “Faltou o triplex e o sítio de Atibaia”, relembrando episódios polêmicos do passado político do presidente. Já um terceiro foi ainda mais ácido: “Venho deixar minha risada aqui quando vocês caírem novamente”.
Entre as mensagens, um internauta chegou a convocar boicote: “Vamos boicotar todos os ‘artistes’ que fizeram desse cenário um ilícito eleitoral”. A grafia errada não tirou o peso da crítica. A repercussão foi tão intensa que a Acadêmicos de Niterói optou por limitar os comentários nas publicações. Uma medida que virou comum nos últimos tempos, principalmente quando o assunto mistura Carnaval e política — combinação que quase nunca passa batida.
O samba-enredo trouxe referências diretas ao universo petista. O tradicional coro “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula” ecoou na avenida e o número do partido foi citado em dois trechos da letra. Para alguns, foi celebração democrática. Para outros, propaganda disfarçada. E assim o debate seguiu, inflamado como costuma ser em tempos de polarização.
Outro ponto que chamou atenção foi a alegoria que fazia crítica ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Ele foi retratado como um palhaço preso, com roupa listrada e tornozeleira eletrônica, numa alusão ao episódio que resultou na revogação de sua prisão domiciliar em novembro do ano passado. A imagem, forte e simbólica, arrancou aplausos de uns e revolta de outros. Teve gente dizendo que Carnaval sempre foi espaço de crítica social. Outros afirmaram que a escola “passou do ponto”.
A primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, era aguardada para desfilar, mas acabou não participando. Segundo pessoas próximas, ela chegou a passar pela Sapucaí, mas voltou para o camarote. Quem ocupou seu lugar foi a cantora Fafá de Belém, que deu um toque musical e ajudou a levantar o público.
No fim das contas, o desfile cumpriu o que prometia: chamou atenção. Seja pela homenagem, pela crítica ou pela repercussão digital. Em tempos em que cada postagem vira munição de debate, a decisão de trancar comentários parece quase automática. O Carnaval 2026 mal começou e já mostrou que, no Brasil, samba e política continuam dançando juntos — às vezes no mesmo ritmo, às vezes pisando no pé um do outro.
