Durante uma conversa descontraída com a rádio Renascença, em Portugal, o ator Antonio Fagundes abriu o jogo sobre sua visão das relações humanas e profissionais, especialmente no ambiente das novelas. Sem fugir de polêmicas, ele citou a colega Regina Duarte como exemplo e, apesar da crítica, fez questão de destacar o respeito que ainda mantém por ela.
“Tadinha (risos). Não guardo nenhum tipo de rancor. Regina foi uma grande parceira de trabalho, uma atriz dedicada, mas na minha visão acabou se equivocando em algumas posições. Claro, tem muita gente que pensa como ela, e eu respeito. Cada um tem o direito de apoiar quem quiser. Só não acho saudável transformar adversário em inimigo. O que vejo hoje é um clima de eliminação, como se quem pensa diferente tivesse que ser ‘varrido’ do mapa. Isso não ajuda. Adversário você tenta dialogar, convencer, trocar ideias. Inimigo você tenta destruir, e isso é muito perigoso para qualquer sociedade”, comentou o ator, num tom firme, mas sem perder a leveza.
A declaração ganhou repercussão porque ainda ecoa a divisão política que o Brasil vive, mesmo em 2025. No fundo, Fagundes se posiciona contra essa cultura do ódio que, segundo ele, só afasta as pessoas.
O ator está em Portugal em cartaz com o espetáculo Dois de nós, que ficará em temporada até o final do ano. Entre entrevistas e compromissos, ele falou também sobre sua disciplina quase militar quando o assunto é teatro. Segundo Fagundes, quem chega atrasado simplesmente não entra — e ponto final.
“Já perdi a conta de quantas vezes fui processado por isso, oito, nove… talvez mais. O curioso é que até hoje venci todas as ações. Eu apenas cumpro o que prometo: o espetáculo começa no horário marcado. Depois que a peça inicia, não há entrada. Não é pirraça, é respeito a quem chegou na hora e está ali sentado esperando. O palco é sagrado, não dá pra abrir exceção porque alguém perdeu a hora”, explicou.
Ele lembra que essa situação não é exclusividade do Brasil. Fagundes contou um episódio curioso de sua estreia em Portugal, há duas décadas:
“Lá no Porto, uns 200 espectadores chegaram atrasados e a confusão foi enorme. Teve gente querendo arrombar a porta, chamaram polícia, até o exército apareceu. Uma verdadeira ‘peixeirada’, como eles mesmos dizem. Mas ninguém entrou. Eu pergunto: como a pessoa pode se sentir ofendida? Quem errou foi ela, não eu. Sempre me perguntam se estou punindo o público, mas é o contrário: eu protejo quem respeitou o horário”.
Esse tipo de firmeza pode parecer exagero para alguns, mas Fagundes defende a ideia de que o teatro é uma experiência coletiva, que exige respeito mútuo. Para ele, permitir atrasados seria desrespeitar a grande maioria que cumpre o combinado.
Entre um comentário e outro, o ator deixou transparecer um pouco de sua filosofia de vida, marcada por disciplina e respeito. Não é à toa que ele segue ativo, com uma carreira sólida que atravessa gerações.
Vale lembrar que Antonio Fagundes é uma figura marcante não apenas pelas novelas, mas também pela postura crítica diante da sociedade. Nos últimos anos, em meio a tantas turbulências políticas no Brasil — da polarização eleitoral às discussões sobre cultura e liberdade artística —, o ator sempre aparece como voz de equilíbrio, defendendo diálogo em vez de ódio.
No fim das contas, a entrevista foi mais do que uma conversa sobre teatro ou novelas: foi uma reflexão sobre convivência e respeito, valores que parecem cada vez mais raros no mundo atual. Talvez por isso as palavras de Fagundes soem tão necessárias em tempos em que até atrasos no teatro viram motivo de crise.