Muita gente toma chá todos os dias achando que, por ser natural, não faz mal nenhum. É quase um ritual: ferve a água, coloca a erva na xícara e pronto. Mas não é bem assim. A hepatologista Monica Viana, de São Paulo, fez um alerta que pegou muita gente de surpresa: alguns chás podem sim prejudicar o fígado e, em situações mais sérias, até provocar hepatite.
Segundo a médica, existe inclusive um termo técnico para esse tipo de problema: Hili, sigla em inglês para lesão hepática induzida por ervas. Parece distante da nossa realidade, mas não é. A especialista explicou que determinadas infusões carregam substâncias que, ao serem metabolizadas pelo fígado, podem desencadear inflamações e até quadros mais graves, como tromboses hepáticas. Ou seja, aquele chazinho inofensivo pode virar dor de cabeça.
E aqui vai um ponto que chama atenção: de acordo com Monica, todos os tipos de chá têm potencial de causar algum nível de lesão, depende muito da quantidade ingerida e da sensibilidade de cada pessoa. Não é uma regra fixa. Tem gente que toma litros por dia e não sente nada, enquanto outra pode ter reação com bem menos. O fígado, afinal, é o grande “laboratório” do corpo. Ele metaboliza tudo que a gente consome, desde medicamentos até alimentos e bebidas naturais.
Nos últimos anos, principalmente depois da pandemia, cresceu bastante o consumo de chás no Brasil. Muita gente buscou alternativas naturais para ansiedade, insônia e até para emagrecimento. Só que o uso diário e sem orientação médica pode acabar trazendo efeitos indesejados. E isso nem sempre aparece de imediato.
Entre as opções consideradas mais seguras, a médica cita o chá de erva-doce e o de melissa. Ainda assim, ela recomenda moderação: no máximo uma xícara por dia. Parece pouco, eu sei. Mas o problema começa justamente quando o consumo vira rotina exagerada, tipo três, quatro xícaras diárias, todos os dias, como se fosse água.
Os sinais de alerta também merecem atenção. Enjoo persistente, mudança na cor ou na consistência das fezes e aquele amarelado na pele ou nos olhos podem indicar que algo não vai bem com o fígado. Em alguns casos, o cansaço excessivo aparece como primeiro sintoma. E a pessoa nem desconfia que pode estar ligado ao hábito aparentemente inocente de tomar chá toda noite.
É importante lembrar que natural não é sinônimo de inofensivo. Essa ideia, inclusive, é um erro comum. A automedicação com ervas pode ser tão perigosa quanto o uso inadequado de remédios industrializados. O fígado é um dos órgãos mais sensíveis do nosso corpo, e qualquer substância que passe por ele em excesso pode gerar sobrecarga.
Monica reforça que, ao notar qualquer alteração no bem-estar depois de iniciar o consumo frequente de infusões, o ideal é procurar um médico. Não custa nada investigar. Às vezes o sintoma é leve, mas pode ser o começo de algo maior.
No fim das contas, o chá continua sendo uma bebida tradicional, reconfortante e até benéfica em muitos casos. Mas como quase tudo na vida, o segredo está no equilíbrio. Exagerar achando que “mal não faz” pode ser um erro. E fígado, quando reclama, não costuma ser discreto. Então vale o cuidado, porque saúde a gente não brinca, né?