O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, voltou a falar nesta quarta-feira (29) sobre a megaoperação que tomou conta do estado nos últimos dias e deixou uma cena de guerra nas comunidades da zona norte. Segundo ele, as “únicas vítimas” da ação são os quatro policiais que morreram durante o confronto. A fala foi dada em coletiva, num tom firme, poucas horas depois de a Defensoria Pública do Rio afirmar que o número de mortos passa de 130 pessoas.
“De vítimas, ontem, só tivemos os quatro policiais”, declarou o governador, repetindo o discurso de que o Estado está em guerra contra o crime e que a operação foi necessária para “restaurar a ordem”.
A declaração causou revolta entre familiares e moradores do Complexo da Penha, um dos locais onde a ação policial foi mais intensa. Durante a madrugada e o início da manhã, dezenas de moradores carregaram corpos até a Praça São Lucas, numa cena que chocou até quem já está acostumado com a violência do Rio. Segundo relatos, mais de 70 corpos foram levados para o local. Muitos deles seriam jovens, moradores da região, o que aumentou a tensão entre a população e as forças de segurança.
O secretário da Polícia Militar, coronel Marcelo de Menezes Nogueira, afirmou mais cedo à TV Globo que os cadáveres levados pelos moradores não estavam na contagem oficial. Ele destacou que os números ainda estão sendo atualizados e que parte dos mortos pode ser de criminosos ligados ao Comando Vermelho (CV), facção que domina parte do território. Ainda assim, fontes extraoficiais falam em mais de 130 mortos, o que faria dessa a operação mais letal da história do estado.
Apesar da dimensão da tragédia, o governo de Cláudio Castro defendeu a ação, chamando-a de “bem-sucedida” e “estratégica”. O governador insistiu que o objetivo foi retomar áreas controladas por facções e garantir que o poder público volte a atuar em locais onde o crime manda mais do que a lei. Segundo ele, a operação contou com cerca de 2,5 mil policiais, além de blindados e helicópteros, numa ofensiva que lembrava uma ação militar de guerra.
Fontes da segurança afirmam que o Comando Vermelho usou drones com explosivos, o que mostra o avanço tecnológico e o poder de fogo das organizações criminosas no Rio. Esse tipo de armamento, até pouco tempo restrito a zonas de conflito internacional, já é realidade nas favelas cariocas. Um policial ouvido sob reserva disse que “a gente está enfrentando um exército, não mais bandidos de chinelo”, resumindo o clima de tensão e impotência entre os agentes.
Nas redes sociais, as imagens que circulam — algumas mostrando filas de corpos cobertos por lençóis — geraram comoção e indignação. Políticos de oposição criticaram duramente o governo estadual, acusando-o de promover uma chacina e de tentar justificar o injustificável. Já apoiadores de Castro argumentam que a operação é um “mal necessário” para enfrentar o poder do tráfico.
A ONU e entidades de direitos humanos devem pedir explicações formais sobre a operação, considerada desproporcional por especialistas em segurança pública. O tema também dominou os noticiários e debates políticos em Brasília, reacendendo a velha discussão sobre o papel do Estado nas favelas: garantir segurança ou espalhar medo?
Enquanto isso, no Complexo da Penha, a vida tenta seguir. Escolas fecharam, comércios não abriram e muita gente ainda tem medo de sair de casa. O clima é de luto e incerteza. A cidade do Rio, que há décadas vive entre a beleza e a violência, parece reviver um dos seus capítulos mais tristes.