Ali Musthofa, um jovem guia de 20 anos, tem vivido dias difíceis desde a tragédia que tirou a vida da brasileira Juliana Marins durante uma trilha no vulcão Rinjani, na Indonésia. Acusado de abandono, ele resolveu quebrar o silêncio e contou, entre pausas emocionadas, como foram os últimos momentos ao lado da turista.
Em conversas separadas com dois influenciadores — um brasileiro e outro da Indonésia — Ali deu sua versão do que aconteceu naquele dia. Segundo ele, Juliana optou por um “pacote compartilhado”, mesmo tendo sido aconselhada a contratar um serviço individual, mais apropriado por conta da sua aparente falta de experiência em trilhas como a do Rinjani, considerada perigosa até por quem já tem o costume de andar em terrenos difíceis.
“Ela era a mais lenta do grupo. Dava pra ver que ela tava bem cansada. Mas eu tinha seis pessoas comigo… e no pacote que ela escolheu, não tem como dar atenção exclusiva. Os outros já tinham ido na frente. E ali no topo do Rinjani, o risco é sério. Eu precisava saber como eles estavam”, contou o guia, visivelmente abalado.
Ele lembrou com detalhes da última conversa com Juliana. Segundo ele, pediu pra que ela esperasse enquanto verificava o grupo que já havia avançado. “Falei com ela: ‘Juliana, espera aqui um pouco. Eu só vou ver se tá tudo certo com o pessoal da frente e volto’. Eu esperei ela no ponto combinado por uns 30 minutos… e ela não chegou”, disse Ali, ainda sem entender direito o que aconteceu no intervalo de tempo.
Foi então que ele decidiu voltar pelo mesmo caminho. “Não achei nada onde tinha deixado ela. Mas vi uma luz lá embaixo… tipo 150 metros de profundidade. Era uma lanterna. No fundo, eu senti que era ela. Entrei em pânico”, relembrou.
Com voz trêmula, ele ainda descreveu o que fez após ver a luz: “Fiquei gritando lá de cima. Eu dizia: ‘Fica parada! Não se mexe, Juliana!’. E tudo que ela conseguia responder era ‘help me’, com uma voz muito fraca”, contou, segurando a emoção.
Dias depois do acidente, Ali teve um encontro com os familiares da brasileira. “Me encontrei com o pai dela e com a irmã na embaixada. Contei tudo, do começo ao fim. Pedi desculpas pra eles… e disse que aceitaria qualquer consequência. Eles ficaram com raiva, claro. Eu também teria ficado”, desabafou.

Ele ainda lamentou não ter conseguido fazer mais: “Eu queria muito ter salvado ela. Rezo por isso todo dia. Eu queria poder dizer ‘me desculpa’ olhando nos olhos dela. Mas acho que Deus tinha outros planos…”
A tragédia gerou forte repercussão tanto no Brasil quanto na Indonésia. Nas redes sociais, muitos internautas têm se dividido entre críticas e mensagens de apoio ao jovem guia. Enquanto isso, o caso segue sendo investigado por autoridades locais. Vale lembrar que, atualmente, o Monte Rinjani está entre os roteiros mais buscados por mochileiros, o que reacendeu o debate sobre segurança em trilhas de alto risco — especialmente quando envolve turistas sem preparo técnico.
Apesar da dor e da pressão, Ali termina seu relato com uma frase curta, mas pesada: “Eu fiz tudo o que pude. Só que, às vezes, o que a gente faz não é suficiente.”