Lula detonou foto usada por governo e pediu para retirar a imagem: “Sem dente e ainda negro”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chamou atenção ao contar uma história curiosa — e até polêmica — durante um evento em Sorocaba (SP), realizado na última quinta-feira (21). Em meio ao discurso, ele revelou que reclamou de uma fotografia usada em uma antiga propaganda oficial do governo federal, lembrando que aquela imagem não passava a mensagem que o país gostaria de transmitir ao exterior.

Segundo Lula, a tal propaganda trazia uma cena que, de início, parecia comum: uma mulher branca, de aparência saudável, com traços típicos de descendentes de italianos ou alemães do Sul do Brasil, sorrindo com as bochechas coradas, rodeada por produtos da agricultura familiar, como alface, pepino e cenoura. Até aí, tudo bem. O problema, segundo ele, estava no contraste com a figura ao lado dela: um homem negro, alto, simpático, mas sorrindo sem nenhum dente na boca.

Lula contou que, ao se deparar com a foto, questionou imediatamente o então ministro responsável pela divulgação:
— Escuta aqui, por que vocês colocaram essa fotografia desse senhor negro sem dente? Você acha isso bonito? Isso é representação do Brasil lá fora?

O presidente afirmou que, para ele, aquela escolha reforçava um estereótipo negativo e acabava transmitindo uma imagem de miséria e descuido, em vez de mostrar a força e a diversidade cultural brasileira. Foi nesse contexto que Lula citou uma famosa frase do carnavalesco Joãozinho Trinta, falecido em 2011: “Quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta é de coisa boa”.

Ainda durante o relato, Lula disse que determinou que a página fosse retirada da publicação e pediu que a propaganda fosse refeita com outra imagem. “Manda colocar alguém sorridente, com dente bonito, porque é isso que a gente quer mostrar”, teria dito ao ministro. O episódio, segundo ele, acabou sendo um dos estopins para a criação do programa Brasil Sorridente, política pública lançada em seu governo e que marcou avanços no acesso ao tratamento odontológico para milhões de brasileiros.

A história narrada pelo presidente não é recente, mas foi retomada em tom de crítica ao modo como o Brasil já foi retratado em campanhas oficiais. Vale lembrar que a fotografia em questão, segundo apuração do jornal Poder360, teria sido produzida para uma ação do antigo Ministério do Desenvolvimento Agrário, com o objetivo de apresentar a agricultura familiar brasileira em um evento internacional na Alemanha.

A fala de Lula, claro, gerou repercussão. De um lado, apoiadores consideraram que ele tocou em um ponto sensível: a forma como a imagem do povo brasileiro é construída e exportada para o mundo. De outro, opositores interpretaram suas palavras como carregadas de preconceito, principalmente pelo fato de ele ter ressaltado a cor da pele do homem retratado. A crítica mais repetida nas redes sociais foi de que, ao tentar combater um estereótipo, o presidente acabou escorregando em outro.

Esse tipo de declaração, vale destacar, acontece num momento em que a pauta da representatividade está em alta. Em tempos de discussões acaloradas sobre racismo estrutural, diversidade em campanhas publicitárias e inclusão social, a lembrança desse episódio coloca ainda mais lenha na fogueira. Até porque, recentemente, marcas conhecidas como Dove e Boticário estiveram no centro de debates semelhantes por causa da forma como retrataram pessoas negras em peças publicitárias.

Apesar das polêmicas, é inegável que o Brasil Sorridente, citado por Lula, foi uma das políticas mais bem avaliadas do seu governo e até hoje é lembrado como referência na área de saúde bucal. Muita gente, principalmente de regiões mais pobres, só conseguiu tratamento odontológico por meio desse programa. Ou seja, um episódio que começou com uma fotografia mal escolhida acabou resultando numa política pública que trouxe impacto concreto na vida de milhões.

Ao final, a narrativa de Lula mistura crítica, lembrança pessoal e um toque de ironia. Para alguns, é apenas mais uma das histórias pitorescas que ele costuma contar em discursos. Para outros, é um retrato fiel de como escolhas aparentemente simples — como uma foto numa revista — podem carregar mensagens profundas sobre identidade, preconceito e o modo como o Brasil deseja se mostrar para o mundo.



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