Em menos de um mês na presidência, Lula tem repetido um grave erro de Bolsonaro nos quatro anos em que administrou o Brasil. O de naturalizar, como chefe de Estado, o tom belicoso utilizado na campanha eleitoral.
Nesta quarta-feira (25/1), em viagem a Uruguai, o chefe do poder executivo chamou Michel Temer de “golpista”. No entanto, Lula esqueceu-que tem como ministra a também “golpista” Simone Tebet, que quando senadora votou pelo impeachment de Dilma.
Não bastasse isso, o petista também não lembrou que tem como vice Geraldo Alckmin, também apoiador do afastamento da petista. Não bastasse isso: o próprio PSB, partido de Alckmin, votou em massa ao afastamento. Há, por sinal, uma grande lista de políticos e partidos que apoiaram o impeachment e hoje faz parte do governo.
Lula parece ter esquecido, ainda, que a retórica belicosa foi de grande importância para o esvaziamento de Bolsonaro, tanto no campo eleitoral quanto para dentro da classe política.
A própria eleição foi um exemplo claro disso: Lula derrotou Bolsonaro ao encabeçar uma frente ampla. Uma frente cheia de “golpistas”.
Permitir na campanha o apoio de defensores do impeachment para, eleito, criticá-los é tampar os olhos para a atual composição do Congresso. Partidos de centro, como o MDB de Temer e Tebet, serão muitos relevantes para a governabilidade.
Uma pergunta que não quer calar: Lula pode pensar que Dilma foi vítima de um golpe? Óbvio. Pode falar sobre isso com menos de um mês à frente do país? Sim. Mas é um erro de principiante.
Descontentamento com as Forças Armadas
Existem mais exemplos da falta de cuidado de Lula com as palavras. O petista subiu o tom contra as Forças Armadas ao afirmar que elas “não são o poder moderador que pensam que são”. Generalizada, do jeito que ficou a sua fala, a frase em nada ajudou para a melhora na relação de Lula com militares.
Há uma semana, em pronunciamento para reitores no Planalto, Lula chamou Bolsonaro de “o coisa”. E fez menção o ex-presidente, que recebeu 58 milhões de votos, a “uma extrema direita fanática raivosa”.
O que se perceber até o momento, logo nos primeiros dias de governo do petista, é o Lula da campanha de 2022. Não aquele que “pacificaria o país”. Bolsonaro tampouco desceu do palanque após assumir. Deu no que deu. Lula, todavia, ainda tem tempo para ajustar o discurso.