Lula volta atrás e desiste de tentar conquistar apoio dos evangélicos

Nos bastidores de Brasília, a conversa da semana foi uma só: Lula resolveu jogar a toalha na tentativa de se aproximar dos evangélicos. Pelo menos é o que contam aliados próximos ao presidente, ouvidos pelo Estadão. A decisão, que já vinha sendo percebida nos últimos dias, acendeu um alerta no Planalto. Motivo? A rejeição desse público ao governo está crescendo, e não é pouco.

Os números falam por si. Uma pesquisa do Datafolha, divulgada em 2 de agosto, mostrou que apenas 18% dos evangélicos avaliam o governo Lula de forma positiva. Em outubro de 2024, eram 30%. Ou seja, em menos de um ano, caiu quase pela metade. E o pior: a rejeição atingiu 55%, o maior índice desde março do ano passado. É um sinal claro de que o discurso presidencial já não encontra eco nesse grupo.

Outro levantamento, desta vez do PoderData, reforça o cenário nada animador. Sete em cada dez evangélicos — 69% — desaprovam a gestão, contra apenas 26% que aprovam. Na prática, significa que qualquer tentativa de diálogo vai ter que atravessar um mar de desconfiança.

Quem acompanha a rotina de Lula já notou uma mudança de tom. Aquelas referências religiosas que, vez ou outra, apareciam nos discursos — especialmente em eventos pelo país — praticamente sumiram. Um aliado próximo resumiu em uma frase curta e direta: “Lula cansou”. Segundo essa fonte, o presidente teria decidido que não vale mais insistir numa aproximação que não gera retorno político.

Mesmo assim, o PT não está disposto a abandonar completamente o jogo. Em maio, por exemplo, a Fundação Perseu Abramo organizou um curso específico para militantes evangélicos, com o objetivo de prepará-los para o diálogo e o debate com pastores e fiéis. A ideia é manter alguma ponte, mesmo que Lula, pessoalmente, já não invista nisso.

O afastamento do presidente desse discurso religioso pode ter várias explicações. Uma delas é que, ao insistir demais, ele poderia acabar desagradando outros setores da sua base, mais ligados a pautas laicas e progressistas. Outra é que, politicamente, o custo-benefício não compensa: enquanto o PT ganha pouco apoio entre os evangélicos, corre o risco de perder simpatia entre outros públicos.

Também é impossível ignorar o contexto mais amplo. Desde as eleições de 2018, o segmento evangélico consolidou-se como um dos pilares da direita brasileira, com forte alinhamento ao bolsonarismo. As redes sociais de líderes religiosos influentes continuam sendo um espaço onde Lula é alvo constante de críticas, muitas vezes com narrativas que reforçam desconfiança sobre o governo.

Esse distanciamento não significa que o assunto vá desaparecer. Em períodos de eleição, por exemplo, é quase certo que algum gesto em direção a esse eleitorado vai aparecer. Mas, por enquanto, a estratégia parece ser outra: focar nos segmentos onde o presidente ainda mantém apoio consistente e evitar gastar energia onde o retorno é mínimo.

De certa forma, o movimento lembra o que outros líderes políticos já fizeram em momentos de baixa aprovação com um grupo específico: reorientar o discurso para consolidar quem já está do seu lado e, só depois, tentar recuperar quem se afastou. A diferença é que, no caso de Lula, o histórico mostra que ele já teve mais proximidade com evangélicos no passado, especialmente nos primeiros mandatos, quando o cenário político e social era bem diferente.

Agora, resta ver se essa decisão de “encerrar a aproximação” é definitiva ou apenas um recuo estratégico. Afinal, na política brasileira, palavras como “nunca” e “sempre” costumam ter prazo de validade bem curto. E, se o vento mudar — ou as pesquisas indicarem outro caminho —, nada impede que o tom volte a se suavizar.



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