Mãe relata desabafo que filho fez momentos antes de ser morto em megaoperação no RJ: ‘Vem aqui, vem me buscar’

A dor das mães que perderam seus filhos na megaoperação policial nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, virou um retrato cruel da violência que se repete nas favelas. Desde a quarta-feira, 29 de outubro, o portão do Instituto Médico Legal tem sido o ponto de encontro de dezenas de famílias desesperadas, esperando para reconhecer os corpos das 121 vítimas — o número mais alto já registrado numa ação policial na história do estado.
Entre essas mães está Taua Brito, que vive agora um luto que não tem fim. Seu filho, Wellington Brito, de apenas 20 anos, foi uma das vítimas. Pouco antes de morrer, ele ainda conseguiu enviar uma mensagem para ela — um pedido de socorro que nenhuma mãe deveria precisar ler. Segundo contou ao jornal Extra, Wellington estava encurralado na Mata da Vacaria, na Penha, quando mandou a última mensagem: “Mãe, vem aqui, vem me buscar.”
Ao receber o recado, Taua largou tudo. Pegou os documentos do filho e saiu correndo de casa, acreditando que ainda poderia salvá-lo. “Eu só queria tirar ele de lá, pra ele não morrer. Que ele pagasse pelo que tava fazendo, mas vivo, preso”, contou, entre lágrimas. Ela ainda tentou subir o morro, mas quando finalmente conseguiu chegar, já era tarde. Wellington estava morto, com um tiro na cabeça.
Durante dias, Taua ficou na porta do IML, enfrentando filas e a burocracia dolorosa de quem precisa liberar o corpo do próprio filho. “Foram os dias mais longos da minha vida. Eu só queria enterrar meu menino e poder me despedir”, disse.
Mesmo diante da dor, ela conta que nunca foi conivente com o caminho que o filho escolheu. “Sempre tentei mostrar outro rumo pra ele, mas aqui na comunidade é difícil. A gente fala, aconselha, mas as oportunidades não aparecem. Na favela, a vida é curta demais, e a tentação é grande”, desabafa.
A história de Taua não é isolada. Em meio ao caos da operação — que deixou também quatro policiais mortos —, outras mães se abraçavam nas calçadas, trocando consolo em meio à tragédia. O clima era de desespero, misturado com revolta. Muitas diziam que os filhos eram trabalhadores, que tinham sido confundidos. Outras, em silêncio, só seguravam fotos amassadas e esperavam.
Mesmo abalada, Taua tenta manter algum senso de empatia. “Eu entendo a dor das mães dos policiais também. Ninguém devia passar por isso. Mas nenhuma mãe devia enterrar um filho. Nenhuma”, afirmou, com a voz embargada.
Hoje, ela tenta recomeçar. Sustenta a casa vendendo bolos e doces, como fazia antes, mas com um vazio que não se preenche. “Parte de mim foi junto com ele. Tudo o que eu sonhava incluía o Wellington e a irmã dele. Agora, a metade de mim ficou lá, naquele morro.”
A fala dela resume o sentimento de uma cidade cansada de tragédias repetidas. As megaoperações — que o governo defende como “necessárias” — continuam deixando um rastro de morte e de perguntas sem resposta. O caso reacendeu o debate sobre a violência policial e o abandono das favelas pelo Estado, que parece lembrar desses territórios apenas quando há tiroteio.
Enquanto políticos trocam acusações e números são divulgados em coletivas de imprensa, Taua e tantas outras mães tentam seguir com a vida, se apoiando umas nas outras. No portão do IML, ainda é possível ouvir gritos e choros abafados — ecos de uma dor que o tempo dificilmente vai curar.

“Eu só queria que ele tivesse tido uma segunda chance. Que tivesse vivido o suficiente pra mudar de vida”, disse Taua, olhando pro vazio, como se esperasse que o filho voltasse.

E assim, entre lágrimas e silêncios, mais uma mãe se despede de um filho num Rio de Janeiro que parece ter se acostumado à morte.



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