Moraes reabre investigação e Bolsonaro volta ao centro da polêmica

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu nesta quinta-feira (16) autorizar a reabertura do inquérito que apura uma suposta interferência do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na Polícia Federal durante o seu governo. A medida foi tomada depois de um pedido feito pela Procuradoria-Geral da República (PGR), agora sob nova direção e com outro olhar sobre o caso.

Esse inquérito não é novo. Ele foi aberto lá em 2020, no auge das tensões políticas entre Bolsonaro e o então ministro da Justiça, Sergio Moro, que hoje é senador pelo União Brasil do Paraná. Na época, Moro largou o cargo denunciando que o presidente queria “interferir politicamente” na PF — o que gerou uma verdadeira crise no governo e um terremoto político em Brasília.

Lá atrás, em 2022, o inquérito acabou sendo arquivado, depois de a Polícia Federal concluir que não havia provas concretas de crime. A então vice-procuradora-geral da República, Lindôra Araújo, também pediu o encerramento. Parecia que o assunto tinha morrido ali, mas pelo visto, voltou com força.

Agora, três anos depois, o novo comando da PGR entende que é “imprescindível verificar com maior amplitude” se houve interferência direta ou até manipulação de investigações, usando a estrutura da máquina pública. Em outras palavras, querem saber se Bolsonaro, de fato, tentou colocar a PF a serviço de seus interesses.

O embate entre Moro e Bolsonaro

A briga entre os dois foi um dos momentos mais marcantes do governo. Moro, que chegou ao cargo com a fama de herói da Lava Jato, acabou saindo pela porta dos fundos, dizendo que o presidente queria controlar a corporação.

“O presidente me disse, mais de uma vez, que queria ter uma pessoa de confiança, com quem pudesse falar diretamente, pedir relatórios, informações de inteligência…”, contou Moro na época, deixando claro que achava isso completamente inadequado. Bolsonaro rebateu, acusando o ex-ministro de “denunciação caluniosa” e de agir por vingança.

Poucos dias depois da saída de Moro, Bolsonaro tentou nomear Alexandre Ramagem, amigo próximo da família e então diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), para comandar a PF. A nomeação, porém, foi barrada por Alexandre de Moraes, que viu ali um claro “desvio de finalidade” — ou seja, o uso político de um cargo público.

Ligação com a chamada “Abin Paralela”

Um dos pontos que reacenderam o interesse da PGR é a possibilidade de que essa suposta interferência na PF tenha relação com o caso da chamada “Abin Paralela”, esquema que teria operado de forma clandestina durante o governo Bolsonaro.

Segundo as investigações em curso, essa estrutura teria sido usada para espionar autoridades, monitorar opositores e coletar dados sigilosos sem autorização legal. O novo procurador-geral, Paulo Gonet, afirma que é preciso checar se houve “obtenção clandestina de dados sensíveis” e se isso se misturou com tentativas de interferência em investigações oficiais.

A PGR também quer avaliar se o uso dessas informações pode ter servido para proteger aliados políticos ou familiares do ex-presidente — o que, se confirmado, configuraria uma grave violação institucional.

Apesar da reabertura, o processo ainda está em fase inicial. A PF deve ser novamente ouvida e pode ser que novas diligências sejam determinadas nos próximos dias. Fontes próximas ao Supremo dizem que Moraes quer que tudo seja feito com discrição, sem espetáculo midiático, mas também sem engavetar o caso de novo.

Enquanto isso, nos bastidores de Brasília, o clima é de expectativa. Aliados de Bolsonaro dizem que a reabertura é uma “perseguição política”, enquanto críticos enxergam uma oportunidade de revisitar um dos episódios mais conturbados do governo passado.

No fim das contas, o caso reacende uma velha discussão: até que ponto o poder político pode se sobrepor às instituições? Essa história ainda promete render capítulos intensos, e, pelo jeito, o embate entre Bolsonaro, Moro e Moraes está longe de acabar.



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