O cenário externo ditou as regras de 2025

Entenda as Mudanças na Inflação e o Impacto do Câmbio em 2025 e 2026

No início de 2025, as expectativas do mercado em relação à inflação estavam fixadas em 5,5%. Durante os primeiros meses do ano, essa previsão se manteve estável, até que em junho, algo inesperado aconteceu: as expectativas caíram para 4,7%, um ponto percentual abaixo do inicialmente previsto. Mas o que realmente causou essa mudança?

Para entender esse fenômeno, é vital olhar para a taxa de câmbio. No final de 2024, o valor do dólar estava em R$ 6,10, e em maio de 2025, caiu para R$ 5,55. Essa mudança significativa pode ser atribuída a fatores externos, especialmente o cenário econômico internacional. Em setembro de 2024, o clima de incerteza começou com o anúncio de tarifas pelo presidente Trump, fazendo com que o DXY, um índice que mede o valor do dólar em relação a outras moedas, subisse quase 10% até o fim daquele ano.

O Efeito das Tarifas e a Apreciação do Dólar

Quando se fala em tarifas, a teoria econômica sugere que os preços de produtos nos Estados Unidos devem aumentar, pois muitos itens são importados ou fabricados com insumos que vêm de fora. O mercado acreditava que a inflação americana poderia subir novamente, levando o Federal Reserve (Fed) a interromper o ciclo de cortes de juros, ou até mesmo aumentá-los. Isso gerou uma corrida dos investidores para o dólar, o que ficou conhecido como “Trump Trade”, uma estratégia que resultou na rápida valorização da moeda americana no final de 2024.

Enquanto isso, a situação fiscal do Brasil se deteriorava. Em dezembro de 2024, a taxa de câmbio atingiu R$ 6,30, com uma média de R$ 6,10. Logo, em janeiro de 2025, os analistas previam um dólar ainda mais desvalorizado, e a expectativa era que a inflação subisse de 4,8% em 2024 para 5,5% em 2025, mesmo com o ciclo de aumento de juros que havia começado ainda em 2024.

A Surpreendente Queda do Dólar

Contudo, a partir de janeiro de 2025, algo surpreendente ocorreu: o dólar começou a desvalorizar nos mercados internacionais, contrariando todas as expectativas. A política econômica de Trump se mostrou confusa, e as tarifas mudaram abruptamente, tornando difícil prever seus efeitos. Essa incerteza fez com que investidores ficassem relutantes em manter suas exposições ao dólar, ao mesmo tempo em que dados de inflação nos EUA mostravam uma leve melhora e o mercado de trabalho apresentava sinais de moderação.

Com a combinação de cortes de juros pelo Fed e a aversão ao dólar, o DXY caiu de 108 para 98 pontos entre janeiro e junho de 2025. As moedas de países emergentes, incluindo o real, acompanharam essa tendência, com uma valorização média de 7% nesse período. O Brasil, em particular, se encaixou nesse padrão de maneira equilibrada, não se valorizando nem desvalorizando muito em comparação com seus pares, mesmo com uma taxa de juros maior.

Impacto na Inflação e Expectativas do Mercado

Com a queda do câmbio, as projeções de inflação começaram a ser revisadas para baixo. Por exemplo, em maio de 2025, a expectativa de inflação para alimentos era de 7,3%, mas agora está em 4,1%. Para os bens industriais, a previsão caiu de 4,2% para 2,9%. Esses dois grupos são os mais sensíveis ao câmbio e têm um peso considerável no índice de preços ao consumidor.

Por outro lado, os serviços, que são mais influenciados pela demanda interna, tiveram uma revisão menor, passando de 6,1% para 5,9%. Isso demonstra que o mercado acreditava que seu diagnóstico inicial estava correto, mas foi surpreendido pela volatilidade do câmbio ao longo do ano.

O Que Esperar para 2026?

Olhando para o futuro, acreditamos que o cenário externo continuará a influenciar o Brasil em 2026. As estimativas sugerem que o câmbio pode oscilar entre R$ 5,20 e R$ 6,00 ao longo do ano. Se essa tendência continuar, poderemos ver uma significativa redução na inflação de alimentos, o que pode ser favorável para o governo que estiver no poder. Nossa previsão para março de 2026 aponta uma inflação de alimentos de apenas 2,5% em 12 meses.

Entretanto, a inflação de serviços provavelmente continuará alinhada com os fundamentos do mercado interno, que ainda enfrenta uma demanda forte, embora em desaceleração. Contudo, essa moderação pode ser desafiada por estímulos fiscais em 2026, ano de eleições, que podem complicar ainda mais o cenário econômico.

Em resumo, o que se espera é um jogo complexo onde a inflação, o câmbio e as políticas fiscal e monetária se entrelaçam, criando um panorama dinâmico e, por vezes, imprevisível.



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