O medo que limita a liberdade das mulheres

O impacto da violência contra a mulher: muito além das estatísticas

A violência contra a mulher é um problema que vai muito além dos casos que aparecem nos jornais ou nos boletins de ocorrência. Na verdade, o medo e a insegurança já começam a alterar a vida das mulheres antes mesmo que uma agressão aconteça. Esse medo, que é palpável e constante, modifica trajetos, muda rotinas e muitas vezes leva as brasileiras a desistirem de oportunidades no trabalho, na educação e até em momentos de lazer, tudo para tentar reduzir o risco de se tornarem vítimas.

A pesquisa que revela a realidade

Um levantamento recente, intitulado “Mulheres, polícia e facções – O que está no centro do debate sobre segurança pública?”, foi divulgado no dia 31 de março pelos institutos Update e Fogo Cruzado. Essa pesquisa apontou que 92% da população brasileira acredita que as mulheres estão mais expostas à violência. Além disso, o estudo revelou que a insegurança influencia diretamente nas escolhas do dia a dia de milhares de mulheres.

Durante a fase qualitativa da pesquisa, muitas participantes compartilharam suas experiências, dizendo que mudaram seus trajetos, passaram a evitar certos horários, deixaram de frequentar determinados lugares e, em algumas situações, até recusaram oportunidades de trabalho e estudo. Isso ocorre especialmente quando essas oportunidades exigem deslocamentos que envolvem sair cedo ou voltar tarde, ou ainda atravessar áreas consideradas perigosas.

Locais de maior insegurança

Os meios de transporte como ônibus, metrôs, trens, além de pontos de espera e até corridas por aplicativo, foram citados como os locais que mais geram sensação de insegurança. De acordo com os dados quantitativos da pesquisa, 39% das mulheres afirmaram não se sentir seguras ao utilizar transporte público, enquanto esse número entre os homens foi de apenas 26%.

A perspectiva de quem entende o problema

Carol Althaller, diretora executiva do Instituto Update, destacou que a violência afeta a vida das mulheres muito antes de um crime ser oficialmente registrado. Ela mencionou que “há um esforço contínuo para antecipar riscos e organizar a própria proteção, que traz consequências para a liberdade, renda, educação, lazer e participação na vida pública”.

Althaller ainda alertou que muitas dessas restrições não aparecem nas estatísticas oficiais. Isso resulta em um retrato incompleto da insegurança, o que leva o Estado a oferecer respostas que também são parciais e insuficientes. Ela comentou que, embora a sociedade reconheça a maior vulnerabilidade das mulheres, é surpreendente notar um consenso em torno desse tema. “A experiência de assédio, violência doméstica, e abuso sexual faz parte do cotidiano de muitas mulheres, vivenciadas diretamente ou observadas por familiares e amigos. O risco é reconhecido, mas ainda ocupa pouco espaço nas estatísticas e nas políticas de segurança”, afirmou.

Medos distintos entre gêneros

A pesquisa também revelou que os medos enfrentados pelas mulheres são diferentes dos homens. As entrevistadas expressaram maior temor em relação à violência doméstica e ao abuso sexual. Além disso, um número maior delas afirmou ter sido vítima de assédio, violência física ou psicológica. Os pesquisadores chamaram esse fenômeno de “o medo que encolhe o mundo das mulheres”, que reflete como a insegurança se transforma em um fator que limita direitos básicos, como circular pela cidade, trabalhar, estudar e participar da vida pública.

Repensando a segurança pública

Para enfrentar essa situação, Carol Althaller defende uma ampliação da própria concepção de segurança pública. Ela sugere que políticas como transporte seguro, melhor iluminação pública, recuperação de espaços abandonados, prevenção da violência doméstica e fortalecimento das redes comunitárias são essenciais para a proteção das mulheres. Além disso, é fundamental que elas sejam incluídas na construção dessas políticas. “Ouvi-las apenas como vítimas e deixá-las de fora do processo de criação de soluções é desperdiçar o conhecimento de quem lida com esses riscos diariamente”, conclui Althaller.



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