Pai de vítima da boate Kiss perde a vida de forma brutal no RJ no Ano-Novo

Era para ser um começo de ano comum, desses de sol forte, família reunida e gente tentando deixar para trás as dores antigas. Mas a quinta-feira, dia 1º, terminou em tragédia em Maricá, na Região Metropolitana do Rio. Luiz Pedro Fortes dos Santos, de 70 anos, morreu afogado na praia de Itaipuaçu, justamente no primeiro dia de 2026. A história, por si só, já seria triste. Fica ainda mais pesada quando se lembra que ele era pai de uma das vítimas do incêndio da Boate Kiss, ocorrido em 2013, no Rio Grande do Sul.

Luiz estava na praia aproveitando o feriado quando foi surpreendido pelo mar agitado. Desde a véspera, a Defesa Civil do Rio de Janeiro havia emitido um alerta de ressaca para todo o litoral fluminense. O aviso não foi discreto: chegou diretamente aos celulares da população, daqueles alertas que fazem o telefone apitar alto. A Marinha do Brasil também reforçou o comunicado, prevendo ondas de até 2,5 metros. Mesmo assim, como acontece tantas vezes, o risco acabou virando realidade.

Testemunhas relataram que o mar estava muito forte em Itaipuaçu. O Corpo de Bombeiros foi acionado e conseguiu resgatar Luiz ainda com vida. Ele foi levado em estado grave para o Hospital Municipal Dr. Ernesto Che Guevara, em Maricá. Apesar dos esforços da equipe médica, não resistiu. A confirmação da morte causou comoção imediata, principalmente entre familiares de vítimas da Boate Kiss, que acompanham histórias como essa há mais de uma década.

Luiz Pedro era pai de Merylin Camargo dos Santos, que morreu aos 18 anos no incêndio da boate em Santa Maria (RS), tragédia que matou 242 pessoas e marcou o país. Desde então, muitas famílias nunca mais foram as mesmas. Algumas seguiram lutando por justiça, outras tentaram reconstruir a vida aos poucos, como deu. Luiz fazia parte desse grupo silencioso de pais que carregam uma ausência diária, dessas que não passam com o tempo.

Nas redes sociais, o Coletivo Kiss: que não se repita, associação que reúne familiares das vítimas, publicou uma mensagem curta, mas carregada de emoção. “Com profundo pesar e tristeza, manifestamos que o reencontro com a Mery seja repleto de amor e paz”, escreveu o grupo. A frase fala por si só e dispensa explicações longas.

O prefeito de Maricá, Washington Quaquá (PT), também se manifestou. Ele lembrou que a história de Luiz carrega uma dor conhecida por todo o Brasil. “Uma família que já havia sido atravessada por uma tragédia profunda e que agora enfrenta mais uma perda irreparável”, disse. A declaração foi compartilhada e comentada por moradores da cidade, muitos deles ainda impactados pelo acidente.

Curiosamente, no dia anterior à morte de Luiz, o próprio Quaquá havia usado as redes sociais para alertar a população. O tom foi direto, quase um apelo. “Não é para entrar no mar no Ano Novo!”, escreveu. Ele reforçou que o litoral do Rio estava sob alerta de ressaca, com ondas passando dos dois metros, inclusive em Maricá. “Não é hora de arriscar”, completou.

O episódio reacende um debate que sempre volta nessa época do ano: a combinação de feriados, calor intenso e mar revolto. Alertas existem, são divulgados, chegam no celular, passam na TV. Ainda assim, muita gente ignora, seja por confiança demais, seja por achar que “comigo não vai acontecer”. Desta vez, aconteceu. E atingiu uma família que já conhecia a dor de perto.

A morte de Luiz Pedro Fortes dos Santos não é apenas mais uma estatística de afogamento. Ela carrega um peso simbólico, um lembrete cruel de como algumas histórias parecem nunca ter um descanso. Para quem perdeu um filho em 2013 e agora perde um pai em 2026, o ano começa diferente, mais silencioso, mais duro. E fica a sensação amarga de que certas tragédias, infelizmente, insistem em se repetir.



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