Porto da Pedra vai homenagear prostituição na Sapucaí

A escola de samba Porto da Pedra resolveu causar — e conseguiu. A vermelho e branco de São Gonçalo convidou nada menos que 70 prostitutas para desfilarem na Marquês de Sapucaí, neste sábado (14), durante o desfile da Série Ouro. A proposta? Colocar na avenida um enredo que fala, sem rodeios, sobre uma das profissões mais antigas do mundo. E não é força de expressão.

O samba-enredo tem um título forte, quase poético: “Das mais antigas da vida, o doce e amargo beijo da noite”. Só aí já dá pra sentir que a escola não quis fazer algo superficial. A ideia é jogar luz sobre histórias que, por muito tempo, ficaram escondidas nas esquinas, nos quartos fechados, nos julgamentos silenciosos da sociedade. E, cá entre nós, o Carnaval sempre foi esse espaço de provocar, né?

Entre as convidadas estão nomes conhecidos do público, como a influenciadora e ex-garota de programa Andressa Urach, a atriz de conteúdo adulto Elisa Sanches e a escritora Bruna Surfistinha. A presença delas, obviamente, aumentou ainda mais a curiosidade em torno do desfile. Gente comentando nas redes, grupos de WhatsApp fervendo, aquele debate que mistura apoio, crítica e até preconceito escancarado.

Mas a escola não parou por aí. Também convidou ex-prostitutas que hoje seguem outros caminhos, como a própria Bruna, que ficou famosa depois de lançar um livro contando suas experiências, e a ativista Lourdes Barreto, de 83 anos, referência histórica na luta pelos direitos das trabalhadoras sexuais. A presença de Lourdes, inclusive, dá um peso político ao desfile. Não é só brilho e pluma. Tem discurso ali.

A Porto da Pedra afirma que a proposta é falar de empoderamento e denunciar o preconceito. Segundo integrantes da escola, o objetivo é mostrar que essas mulheres são, antes de qualquer rótulo, trabalhadoras. Gente que sustenta família, que paga boleto, que enfrenta violência e invisibilidade. Uma das convidadas, Elisa Sanches, definiu a categoria como de “mulheres trabalhadoras”. E essa frase virou quase um slogan.

Claro que a escolha do tema dividiu opiniões. Tem quem ache ousado e necessário. Tem quem critique, dizendo que o Carnaval não deveria “romantizar” a prostituição. Mas a verdade é que a Sapucaí sempre foi palco de discussões sociais. Basta lembrar de enredos recentes que falaram de racismo, desigualdade, política e até religião. O Carnaval não é só festa. É narrativa, é disputa de versão, é grito coletivo.

E vamos combinar: falar de prostituição no Brasil é mexer num vespeiro. O país lidera rankings complicados quando o assunto é violência contra a mulher, e o debate sobre regulamentação do trabalho sexual sempre esbarra em moralismo. Enquanto isso, milhares de mulheres continuam atuando à margem, sem direitos trabalhistas, sem proteção real. Fingir que não existe talvez seja mais confortável, mas não resolve nada.

Na avenida, a expectativa é de um desfile impactante, visualmente forte e, ao mesmo tempo, provocador. Fantasias devem trazer elementos que misturam glamour e dureza, luz e sombra — o tal “doce e amargo” citado no enredo. A escola aposta que vai emocionar, mas também fazer pensar. E talvez incomodar. Carnaval que não incomoda, às vezes, passa batido.

No fim das contas, a decisão da Porto da Pedra mostra que a Série Ouro também sabe chamar atenção e pautar assunto. Se vai agradar todo mundo? Impossível. Mas que colocou o tema no centro da conversa, isso colocou. E na Sapucaí, onde cada detalhe é analisado, a escola promete transformar polêmica em espetáculo. Resta saber como o público vai reagir quando o tamborim tocar e essas histórias, finalmente, ganharem o brilho da avenida.



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