Crise no Ueno Bank: O Impacto da Intervenção e a Renúncia de Santiago Peña
Era uma manhã como tantas outras para Renata de Brito, uma empresária que mantém uma lanchonete na cidade de Hernandarias, próxima à fronteira com o Brasil. Ela costumava confiar suas economias e os pagamentos de seus clientes ao Ueno Bank, um dos principais bancos do Paraguai. Mas tudo mudou de repente. “Me falaram que estava bloqueado quando tentaram fazer um pagamento para mim. Quando fui ver, não acessava mais nada. Estou muito preocupada pelo meu negócio”, compartilha Renata, que sempre utilizou a maquininha do banco para facilitar suas transações.
A Intervenção no Ueno Bank
A crise no Ueno Bank começou a se desenrolar em uma terça-feira fatídica, quando o Banco Central do Paraguai decidiu intervir, após constatar que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido. Essa situação alarmante não apenas afetou Renata, mas também levou à renúncia do presidente paraguaio, Santiago Peña, no dia 5 de novembro. “Faço isso pensando na estabilidade do país”, declarou Peña ao renunciar.
O Ueno Bank tinha, segundo dados da própria entidade, cerca de 3 milhões de clientes, o que corresponde a aproximadamente 60% da população adulta do Paraguai. Isso significa que uma quantidade significativa de cidadãos viu suas economias bloqueadas de forma abrupta. Além disso, havia milhões de dólares de recursos públicos, especialmente da previdência social, que estavam sob a administração do banco. O Fundo de Garantia de Depósitos do Paraguai oferece cobertura para depósitos de até 228 milhões de guaranis por pessoa, cerca de R$ 211 mil, mas a situação financeira de muitos clientes ainda é incerta.
Consequências e Reflexões
O economista Alexandre Barros da Costa, que estuda a economia paraguaia na Universidade Federal da Integração Latino-Americana e na Universidade Federal do Paraná, alerta que a crise no Ueno pode impactar não apenas paraguaios, mas também dezenas de milhares de brasileiros que residem no país. Ele explica que o banco atraía imigrantes pela facilidade de abertura de contas e a falta de burocracia, o que o tornou a escolha preferida para muitos, incluindo pequenos comerciantes e estudantes.
Renata, que se mudou para o Paraguai após ser afetada por enchentes no Rio Grande do Sul, escolheu o Ueno Bank pela sua presença forte no país e pela publicidade que fazia, especialmente no patrocínio de clubes de futebol. “Eu já havia pago todas as contas que venciam este mês, mas temo que até o fim de novembro, quando preciso pagar a parcela de um apartamento, não tenha meu dinheiro de volta”, desabafa. Essa insegurança faz com que muitos, como ela, busquem alternativas em outros bancos, enfrentando longas filas e incertezas.
Impactos na Comunidade Brasileira
Os brasileiros que vivem no Paraguai, como Renata e a empresária Erika Silva, têm enfrentado dificuldades semelhantes. Erika, que estava prestes a se mudar definitivamente de São Paulo para o Paraguai, viu seus recursos financeiros bloqueados, mas ainda mantém a esperança de que a situação se resolva. “Não vou voltar atrás, porque pior que está aqui no Brasil não fica”, afirma.
Apesar dos desafios, muitos brasileiros ainda enxergam o Paraguai como uma alternativa viável, principalmente em busca de um ambiente econômico mais favorável e menos burocrático. Segundo estimativas, em 2025, havia cerca de 270 mil brasileiros vivendo no Paraguai, a maior comunidade na América do Sul, apenas atrás de Estados Unidos e Portugal. Essa migração é motivada por questões econômicas e políticas, e a crise no Ueno Bank apenas intensifica essa realidade.
Um Olhar para o Futuro
Alexandre Barros da Costa acredita que os efeitos da crise do Ueno podem ser mais imediatos, gerando um impacto no consumo das famílias e na atividade dos pequenos comerciantes. Porém, ele ressalta que a economia paraguaia, em termos macroeconômicos, apresenta estabilidade. “Não há que se falar em desespero em termos de macroeconomia”, afirma. O crescimento do Paraguai nos últimos anos tem sido impulsionado pela inclusão financeira e pela crescente bancarização da população.
É inegável que a crise do Ueno Bank, comparada a escândalos semelhantes, como o caso do Master no Brasil, traz repercussões significativas. A mobilização de recursos públicos e a proteção financeira do Fundo Garantidor podem gerar uma situação em que a sociedade como um todo arcará com os custos da má gestão.
Conclusão
A crise no Ueno Bank representa não apenas uma preocupação financeira para muitos, mas também um reflexo de questões mais amplas que envolvem a política e a economia paraguaia. Renata, assim como muitos outros, espera que haja uma solução rápida e eficaz para a devolução de seus recursos. No entanto, a incerteza paira sobre o futuro do banco e a estabilidade econômica do país.