Secretário do governo Donald Trump fala em “consertar” o Brasil

O clima entre Brasil e Estados Unidos voltou a esquentar depois das declarações do secretário de Comércio norte-americano, Howard Lutnick. Em entrevista ao canal NewsNation, o secretário não poupou palavras e disse que o Brasil precisa ser “consertado” para deixar de atrapalhar os interesses dos EUA. A fala gerou surpresa e até certo incômodo, afinal, não é todo dia que um país como o nosso é citado diretamente nesse tipo de contexto internacional.

Lutnick colocou o Brasil no mesmo pacote que outras nações que, segundo ele, “têm um problema” e precisam “reagir corretamente” às pressões de Washington. Ele mencionou também a Suíça e a Índia, e foi categórico: esses países devem abrir mais seus mercados e parar de adotar medidas que prejudiquem os norte-americanos. Na visão dele, os Estados Unidos estariam em desvantagem comercial diante dessas políticas.

Curiosamente, o Brasil não foi incluído na nova rodada de tarifas anunciada pelo presidente Donald Trump, que começam a valer já nesta quarta-feira, dia 1º. As taxas vão de 25% a 100% em produtos que variam desde medicamentos até caminhões pesados, passando por móveis, utensílios de cozinha e até itens de banheiro. Entre os afetados estão a própria Suíça, a Índia, além de países como Austrália e Coreia do Sul. O Brasil, por enquanto, ficou de fora dessa pancada inicial, mas o recado foi dado: se não se alinhar, pode ser o próximo da lista.

Lutnick fez questão de citar o exemplo suíço para explicar o raciocínio. Segundo ele, a Suíça, apesar de pequena, é um país riquíssimo justamente porque vende muito mais para os americanos do que compra deles. O déficit, segundo o secretário, chega a 40 bilhões de dólares — algo em torno de 214 bilhões de reais na cotação atual. Na visão dele, isso desequilibra o comércio e prejudica os EUA.

O discurso se encaixa na lógica que Trump vem defendendo desde sua campanha: proteger a indústria e os consumidores norte-americanos. Ele já deixou claro que, se um país quer ter acesso ao mercado dos Estados Unidos, precisa jogar conforme as regras da Casa Branca. Ou, nas palavras de Lutnick, é preciso “jogar bola” com o presidente.

Aqui no Brasil, a fala repercute em um momento delicado. A economia nacional ainda tenta se equilibrar depois das turbulências políticas e da desaceleração global. Exportadores brasileiros de carne, soja e minério, por exemplo, têm nos EUA um de seus mercados estratégicos. Um eventual aumento de barreiras comerciais pode complicar ainda mais a vida desses setores.

O mais curioso é que essa discussão acontece ao mesmo tempo em que o Brasil tenta se posicionar como um ator mais relevante no cenário internacional, especialmente no G20 e nas negociações ambientais. Só que, diante da postura dura do governo Trump, esse espaço pode ficar reduzido. E aí a pergunta que fica é: até que ponto vale se alinhar para evitar retaliações?

Outro ponto que não dá pra ignorar: as eleições nos Estados Unidos estão logo ali na esquina. Trump tem usado esse discurso protecionista como trunfo eleitoral, tentando mostrar ao eleitorado que está “defendendo os empregos americanos”. Nesse contexto, atacar países parceiros ou pressioná-los vira quase um recurso de campanha.

Para o Brasil, o desafio é duplo: não se queimar com um dos maiores compradores dos nossos produtos e, ao mesmo tempo, não parecer submisso demais. Afinal, ser chamado de país que precisa ser “consertado” não pega nada bem para a nossa imagem. A diplomacia brasileira, portanto, vai ter que escolher com cuidado as palavras e as estratégias daqui para frente.

No fim das contas, a fala de Lutnick acende um alerta. Mesmo fora da lista de tarifas de agora, o Brasil está sob os holofotes. Se não ajustar seus passos, pode ser que, na próxima rodada, a cobrança venha na forma de taxas pesadas. E, como a gente sabe, quando o gigante americano bate na mesa, o impacto é sentido do outro lado do continente em questão de horas.



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