Sindicato de irmão de Lula pagava “caixinha” para amiga de ex-ministro; entenda

Nos últimos meses, a chamada “Farra do INSS” vem causando barulho em Brasília e em São Paulo. A história gira em torno do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi), entidade que deveria defender os aposentados, mas que, segundo documentos revelados pelo portal Metrópoles, teria transformado o desconto feito nos benefícios do INSS em um verdadeiro balcão de negócios.

O esquema funcionava mais ou menos assim: toda vez que o desconto do Sindnapi caía no contracheque de um aposentado, dirigentes do sindicato – ou pessoas muito próximas a eles – recebiam comissões bem gordas. A soma dessas comissões já chega a R$ 4,1 milhões. Isso sem contar que várias notas fiscais estão faltando, o que significa que o valor real pode ser bem maior.

Entre os beneficiados estão nomes de dentro da cúpula sindical. A advogada Tonia Andrea Inocentini Galleti, diretora jurídica do Sindnapi e bastante conhecida nos bastidores de Brasília, aparece envolvida. Tonia é filha de João Batista Inocentini, o “João Feio”, que presidiu o sindicato até sua morte em agosto de 2023. Além disso, ela é amiga de Carlos Lupi (PDT), atual ministro da Previdência, e chegou a participar tanto do Conselho Nacional de Previdência Social (CNPS) quanto da transição do governo Lula em 2022.

O marido dela, Carlos Afonso Galleti Júnior, é sócio da empresa Gestora Eficiente LTDA, criada justamente para processar as fichas dos descontos e repassar à Dataprev. Outra sócia importante foi Daugliesi Giacomasi Souza, esposa do presidente do sindicato, Milton “Cavalo” Baptista de Souza. Embora tenha deixado a sociedade em junho de 2024, ela também surfou na onda.

Essa empresa, a Gestora Eficiente, fica em um prédio comercial no bairro da Liberdade, em São Paulo. Entre 2020 e 2023, ela recebeu ao menos R$ 4,1 milhões do próprio Sindnapi, do banco Bmg e da seguradora Generali, ligada ao mesmo banco. Os pagamentos cresciam de acordo com a quantidade de aposentados descontados. Ou seja: quanto mais gente tinha o contracheque cortado, maior era o lucro do grupo.

E tem mais: o Sindnapi, que é ligado à Força Sindical, tem como vice-presidente ninguém menos que José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão mais velho do presidente Lula. Essa proximidade, claro, deixa a história ainda mais sensível politicamente.

A Polícia Federal também entrou no caso. Em abril deste ano, deflagrou a Operação Sem Desconto, para investigar o suposto esquema. As denúncias começaram depois de uma série de reportagens do Metrópoles, que mostraram como aposentados eram surpreendidos com descontos que nunca tinham autorizado.

Boa parte dessas queixas surgiu de quem buscava empréstimos no Bmg ou nas Lojas Help!, a financeira do banco. Muitos aposentados relataram que foram induzidos a acreditar que o desconto do Sindnapi era obrigatório para conseguir o empréstimo. Outros disseram que sequer foram avisados. Há relatos ainda mais graves: dados pessoais e assinaturas teriam sido usados sem consentimento para autorizar a cobrança.

Os números dão uma ideia da proporção da coisa. Só em 2020, a Gestora Eficiente faturou cerca de R$ 340 mil em comissões. Em 2022, esse valor pulou para mais de R$ 1 milhão. Já o Sindnapi, que recebia R$ 23 milhões em descontos no ano de 2020, chegou a R$ 154,7 milhões em 2024, segundo o Portal da Transparência. Um salto de quase 564% em quatro anos – coisa que nem inflação, nem milagre econômico explicam.

Enquanto isso, milhares de aposentados seguem reclamando que o desconto, pequeno no começo, acaba pesando muito no fim do mês. Num país em que o café passou de R$ 5 em muitas padarias e a conta de luz anda só aumentando, cada centavo faz diferença. Para quem depende da aposentadoria pra sobreviver, esse tipo de esquema é mais que polêmica política: é um verdadeiro golpe no bolso.



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