Trump e COP30: Os desafios de Lula após retornar da ONU

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou recentemente dos Estados Unidos trazendo na bagagem o que chamou de uma “vitória” diplomática. O motivo? Uma aproximação inesperada com Donald Trump, hoje novamente no comando da Casa Branca. Só que, de volta ao Brasil, o petista encara dois grandes desafios: transformar esse aceno em algo concreto e, principalmente, evitar que a COP30 em Belém vire um fiasco mundial.

Em Nova York, Lula tentou abrir espaço no governo americano, aproveitando os bastidores da Assembleia Geral da ONU. O contato inicial foi feito, mas agora começa a fase mais complicada: a das negociações de fato. Diplomatas de ambos os lados precisam alinhar pontos e mostrar resultados palpáveis, coisa que, como se sabe, não acontece da noite pro dia.

Paralelo a isso, o governo também usou a viagem para falar da COP30, prevista para novembro em Belém (PA). Só que o evento, que deveria colocar o Brasil como protagonista nas discussões climáticas, já começa a gerar dor de cabeça. O problema central é simples e grave: hospedagem. Hotéis lotados, preços inflacionados e receio de que delegações internacionais desistam ou enviem equipes menores.

O momento que mais chamou atenção foi o encontro entre Lula e Trump. O ex-presidente republicano, em seu discurso na ONU, revelou ter abraçado o brasileiro nos corredores e sugeriu uma reunião mais longa na semana seguinte. “Tivemos química, foi rápido mas positivo”, disse Trump, no seu estilo sempre performático. Para muita gente, a cena pareceu improvável — afinal, Lula havia criticado duramente sanções impostas pelos EUA minutos antes.

Apesar do clima amistoso, Trump não deixou de repetir críticas à relação Brasil-EUA. Ainda assim, o gesto foi considerado uma vitória política para Lula, especialmente porque veio logo depois de medidas duras de Washington contra aliados do governo brasileiro, incluindo a inclusão da esposa de Alexandre de Moraes na chamada Lei Magnitsky.

O Itamaraty tratou o episódio com cautela. O chanceler Mauro Vieira comentou que a reunião entre os dois presidentes provavelmente será virtual, mas o próprio Lula deixou em aberto a possibilidade de encontro presencial.

Enquanto Trump acenava, nomes próximos ao bolsonarismo comemoravam as sanções aplicadas pelo Tesouro americano. Eduardo Bolsonaro, por exemplo, é apontado por diplomatas como um dos que mais pressionaram por essa ofensiva. Marco Rubio, senador e aliado do bolsonarismo nos EUA, também não poupou ataques ao Brasil, afirmando que o julgamento de Jair Bolsonaro — condenado a mais de 27 anos por tentativa de golpe — seria motivo suficiente para endurecer contra Brasília.

Entre diplomatas brasileiros, há quem veja Rubio como “porta de entrada” de Eduardo Bolsonaro na Casa Branca. “Ele não é amigo do Brasil”, disse um ministro ao site Metrópoles. Essa visão reforça o quanto o tabuleiro geopolítico está longe de estar resolvido, mesmo com gestos de simpatia de Trump a Lula.

O desafio da COP30

Se no campo externo Lula tenta aproveitar o inesperado, em casa o problema é mais concreto. A COP30 deveria ser uma vitrine para o Brasil, mas a falta de estrutura em Belém preocupa. Governos estrangeiros já cogitam mandar menos representantes por causa dos preços abusivos e da dificuldade para encontrar hospedagem.

Para tentar equilibrar a balança, Lula anunciou durante sua viagem que o Brasil vai investir 1 bilhão de dólares no Fundo Florestas Tropicais Para Sempre, iniciativa que será lançada na COP. O presidente pediu ainda que outros países sigam o exemplo com “contribuições ambiciosas”.

A fala vem em contraponto direto a Trump, que voltou a dizer que as mudanças climáticas são “fraude” e “o maior golpe do mundo”. Declarações assim, vindas do presidente da maior potência econômica, complicam ainda mais o esforço brasileiro de dar peso à conferência.

Lula insiste que a COP30 será a “COP da verdade” e chegou a tratá-la como “teste de fogo” para a cooperação internacional. Convidou pessoalmente a presidente do Peru, Dina Boluarte, e pretende reforçar o convite a Trump caso os dois se reúnam de novo.

Agora, resta saber se o Brasil conseguirá equilibrar essa diplomacia arriscada: por um lado, abraços e química com Trump; por outro, a difícil missão de mostrar ao mundo que Belém pode ser palco de um evento climático histórico, e não motivo de constrangimento.



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